Consequências do colonialismo a nível científico e artístico, literatura
infantil, provérbios, religião, entre outros assuntos, foram temas
debatidos pelo Projecto Dikanda do Reino do Kongo em colóquios
ocorridos no Instituto Camões – Centro Cultural Português e no
Magistério Mutu-ya-Kevela, em Luanda.
Estiveram no centro das apresentações do evento os académicos Patrício
Batsîkama, Ndonga Nfuwa, Petelo Nguinamau, Agnela Barros, Filemon
Buza, Joaquim Rescova, entre outros.
Durante o evento, abordaram-se temas como ‘Estruturas Políticas e
Administrativas do Antigo Reino do Kongo’, ‘O Reino do Kongo Pré-
Colonial: Uma civilização milenar’, ‘A Figura de Kimpa Vita: Profetisa do
Reino do Kongo como símbolo de Resistência africana’, bem como
‘Sincretismo Religioso e Messianismo na Realidade Kongo: Uma Reflexão à
Luz da Religião Africana’.
O primeiro tema ‘Estruturas Políticas e Administrativas do Antigo Reino do
Kongo’ foi dissertado pelo historiador, filósofo e antropólogo angolano
Patrício Batsîkama. Autor de muitos artigos científicas e inúmeras obras, o
também pai da corrente Etonismo abordou a Batalha de M´banza Kongo,
de 1504, como demonstração da existência de estruturas políticas e
militares sólidas no antigo Reino do Kongo, bem como uma filosofia
própria endógena.
A abordagem sobre ‘O Reino do Kongo Pré-colonial: uma civilização
Milenar’ coube ao linguista Ndonga Nfuwa, que considerou, na ocasião, o
Kongo uma nação com forte unidade identitária, destacando M’banza
Kongo como símbolo unificador da etnia Bakongo, cuja língua é o kikongo,
falada em Angola, na República do Congo, na República Democrática do
Congo e no Gabão, originando, segundo o académico, um conjunto de
variedades.
Outro assunto que mereceu atenção é ‘A Figura de Kimpa Vita: Profetisa
do Reino do Kongo como símbolo de resistência africana’, proferido pelo
Professor Doutor Petelo Nguinamau, afecto à Faculdade de Humanidades
da Universidade Agostinho Neto. O especialista em Literaturas destacou a
história das religiões que oferecem exemplos de messianismos religiosos.
Ao longo da prelecção, defendeu que o messianismo religioso não só
deixa uma forte incidência sociocultural na história africana, como
também na vida corrente dos povos africanos. A abordagem referiu-se à
figura de Kimpa Vita como uma personagem messiânica que marcou a
história do Reino do Kongo no século XVIII.
Os colóquios também foram marcados por oficinas culturais que
trouxeram como discussões provérbios na língua kikongo, literatura
infantil e o projecto Dyembu Dyetu (nossa aldeia, em português). De
acordo com os especialistas do evento, os provérbios na língua kikongo
configuram-se como saber multifuncional, uma vez que articulam
oralidade, gesto, memória, entoação e contexto num acontecimento
performativo de linguagem.
A Oficina de Literatura Infantil consistiu em formar leitores por meio de
leitura, oralidade, escrita criativa, ilustração e dramatização, inspiradas
nas tradições do Reino do Kongo.
O Projecto Dyembu Dyetu, que quer dizer ‘nossa aldeia’ em português,
está virado para estudos avançados das manifestações culturais das
comunidades rurais angolanas, com o objectivo de preservar e de divulgar
o vasto património imaterial angolano.
O objectivo do Projecto Dikanda do Reino do Kongo é abordar
experiências, perdas, memórias, percepções actuais e vasto mosaico
resultante de investigações. É dirigido pelo artista Jamil Osmar ‘Parasol’ e
surgiu de questionamentos e imaginações que um grupo de indivíduos
talentosos e instituições se colocou a propósito das fronteiras que hoje
dividem o antigo Reino do Kongo, definidas na Conferência de Berlim
(1884-1885).
Financiado pelo programa Espaços Europeus de Cultura dos Institutos
Nacionais de Cultura da União Europeia (EUNIC), o Dikanda do Reino do
Kongo é uma iniciativa do Camões - Centro Cultural Português, Goethe-
Institut Angola, Casa de Cultura e Artes Ubuntu, Rádio Nacional de Angola
e do Teatro VOVA, com os apoios do Ministério da Educação, Governo
Provincial do Zaire, Museu Regional do Reino do Kongo e Refriango.



