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Quinta-feira, 9 de abril de 2026

Cultura e Patrimônio

Marilina de Carvalho “Espero um novo O Estandarte com qualidade, que contribua para informação, formação e recuperação de valores”

Por Administrador8 de janeiro de 20251 visualizações
Marilina de Carvalho  “Espero um novo O Estandarte com qualidade, que contribua para informação, formação e recuperação de valores”

 

Foi na sua fase de transição da adolescência para a juventude que Marilina de Carvalho, esposa do primeiro Bispo da Igreja Metodista em Angola, Emílio de Carvalho, teve contacto com o jornal O Estandarte, sendo o seu pai um leitor assíduo e uma das pessoas que contribuía financeiramente para impressão da publicação. “Quando me lembro do jornal O Estandarte, lembro-me do Reverendo Gaspar de Almeida. Naquela altura, nem chamávamos de reverendo. Chamávamos senhor Gaspar de Almeida, porque era uma figura muito familiar. A sua casa era na Missão, e era professor na escola da Missão. E nós conhecíamo-lo muito como professor. Olhávamos para ele como uma pessoa intelectual, um educador e era o director e fundador d'O Estandarte. E o escritório do jornal estava no mesmo prédio onde ele dava as aulas”, contou. 

Nesta primeira reedição, Marilina recorda que o director do jornal passava a maior parte do seu tempo na redacção, e todos sabiam que era de lá que saía O Estandarte. “Algumas pessoas, homens da igreja e uma mulher que se distinguia, a dona Maria da Silva Neto, a mãe do presidente António Agostinho Neto, faziam parte do grupo de apoio ao O Estandarte. Para além de ser assinante, o meu pai estava sempre lá em cima também com o senhor Gaspar de Almeida”, referiu.  

Trabalharam ainda para o jornal António Vítor de Carvalho, que era a pessoa que ia levantar os jornais na imprensa nacional e depois ia para a distribuição. Outro funcionário do jornal era o senhor Sebastião Gaspar, que era o administrador. Para além dos assinantes, haviam outras pessoas como o senhor Pascoal da Costa e o senhor Joaquim de Figueiredo, pai de Marilina, que apoiavam financeiramente para que o jornal realmente pudesse sair. 

Apesar da sua tenra idade, Marilina de Carvalho lia o jornal, “não muito, mas tinha curiosidade de ver, não com aquela profundidade, porque tínhamos outras coisas, realmente, para as quais nos dedicar, mais ligadas à juventude; no entanto, sempre tivemos aquele olhar para O Estandarte”, relatou. Acrescentou também que, no princípio, por ser uma adolescente, não tinha muito interesse; mas, na medida que foi crescendo, também o interesse pelo jornal aumentava. “E muito mais interesse eu tive quando o meu pai foi transferido de Luanda para Cabinda, porque o jornal dava sempre as notícias, fulano de tal foi transferido, nasceu o fulano…”, diz.  

Mais tarde, Deolinda Rodrigues juntou-se ao corpo directivo d'O Estandarte. “Aí interessou-nos mais porque Deolinda já era uma pessoa que nos influenciava. Nós éramos amigas e tínhamos muitas conversas variadas com ela”. Deolinda Rodrigues começa a publicar alguns poemas muito interessantes. Há um poema de Natal muito interessante e outros; e, nas entre linhas, ela já falava da liberdade mesmo no jornal. “Por isso aí comecei eu, pelo menos, já a olhar O Estandarte com outro olhar, já estava mais jovem, já não era adolescente, já estava mais interessada em coisas um pouco mais sérias e, então, lia realmente mais”, ressalta. 

A existência do jornal foi muito importante para a juventude naquela época, na medida em que era um meio educacional; para além de fornecer as informações do dia-a-dia, também dava a conhecer assuntos educativos. “E nós podíamos, através do jornal O Estandarte, também beber um pouco de conhecimento. E o jornalismo em si tem essa vertente também: comunicativa e educativa”, sublinha.  

Marilina de Carvalho admite esperar “que este novo jornal seja tão bom e até um pouco melhor, porque os jornais, para aquela época, eram muito bons mesmo. A igreja Católica tinha o jornal Apostólico e nós os evangélicos tínhamos O Estandarte, que era um jornal diferente, que, se nós víssemos o jornal “Província de Angola” ou outro, era diferente e nós sentíamo-nos mais confortáveis e gostávamos”. 

O jornal não publicava apenas matérias da igreja Metodista, pois recebia contribuições de outras igrejas. “Várias igrejas evangélicas também contribuíam com o seu saber, o seu conhecimento, o seu trabalho. Inclusive, acho que tem algumas edições com alguns artigos escritos por jornais evangélicos de Portugal, todos para uma orientação de educação, seja ela em que área fosse. Por isso, digo que o Jornal O Estandarte era muito bom, muito sério, sempre presente naquela altura” 

Fez saber que, em 1960, o Reverendo Gaspar de Almeida saiu da direcção e o Bispo Emílio de Carvalho, naquela altura pastor, tornou-se o director-geral e, até aí, o jornal era bom, era sério. No entanto, devido à toda a situação de guerra contra o colonialismo e as suas consequências, o jornal foi suspenso. Na era da independência, um grupo de profissionais queria trazer de novo o jornal, mas O Estandarte que apareceu não foi de qualidade, como era o antigo.  

“E é por isso que estou a dizer que espero realmente um novo O Estandarte com qualidade, que seja um veículo de educação, de contribuição para informação e formação, e para também nos ajudar na recuperação de valores e de outros aspectos que a nossa sociedade está a necessitar; que a Igreja Metodista, através deste jornal, o possa fazer. Já o faz através das pregações nas igrejas, outros programas nas igrejas, mas este jornal teria uma maior expansão no nosso país, uma vez que a sua distribuição será a nível nacional, com certeza. Por isso, espero que o façam com muita responsabilidade, de realmente educar, de formar com qualidade e com responsabilidade, que muitas vezes nós não encontramos”, rematou.